Entendendo a possibilidade, mais do que certa, das mesmas coisas representarem algo diferente em diferentes pessoas, seremos mais compreensíveis com nosso muito próximo e sua maneira pessoal de sentir o mundo. De qualquer forma, tentar conviver com nosso muito próximo do jeito que ele é, compreendendo-o e aceitando seus sentimentos, sua maneira de pensar e de agir requer boa dose de abnegação e complacência.
Para essa tentativa de convivência precisamos mudar algumas coisas em nosso interior. Precisamos, principalmente, nos despojar do orgulho, da vaidade e da presunção. Há pessoas que não abrem mão desses sentimentos da alma humana (do Ego) alegando o risco de anularem suas personalidades, como costumam dizer. Trata-se de uma afirmativa mais retórica que real. Não se anula personalidade alguma, antes disso, constrói-se uma personalidade solidamente imune à alguns tropeços da natureza humana.
Abrir mão de nosso orgulho, de nossa vaidade e de nossa presunção não é tarefa fácil. É instintivo que a natureza humana se deixe conduzir por tais atributos e toda iniciativa contrária à eles é trabalhosa. Tudo o que eleva a pessoa é mais trabalhoso que aquilo que degenera.
Aceitar o fato de que minha opinião possa não ser a melhor mas apenas minha opinião, que minhas atitudes possam não ser as mais certas mas apenas minhas atitudes, que meu muito próximo possa gostar dele o mesmo tanto que gostamos de nós, enfim procurar fazer com que nosso ego se realize na humildade e não dependa de adulações são tarefas tão ou mais difíceis que tentar mudar meu muito próximo.
Ao tentar mudar os outros sabemos para quem e em qual direção devemos apontar nosso arsenal mas, em se tratando da mudança em nosso próprio ser, constatamos que nosso maior adversário encontra-se dentro de nós mesmos. De fato, tentar mudar a nós mesmos pode ser mais difícil que tentar mudar os outros.
O ideal seria não sofrermos quando a maneira de ser de nosso muito próximo fosse diferente da nossa. Há pessoas privilegiadas que conseguem conviver naturalmente com seu próximo por possuírem uma personalidade nobre. Quando não for esse o caso, conseguiremos conviver com nosso muito próximo produzindo mudanças favoráveis em nosso ser, como dissemos. Estaremos, assim, construindo uma personalidade também nobre.
Entretanto, não sendo possível empreendermos mudanças favoráveis em nosso ser, impossibilidade normalmente devida ao nosso gênio irascível, ou quando a maneira de ser de nosso muito próximo for decididamente irreconciliável com a nossa, devemos ponderar a seguinte questão: O grau de proximidade desse nosso muito próximo é suficiente para convivermos obrigatoriamente com ele?
Se for definitivamente obrigatória a convivência com esses nossos muito próximos, devemos saber dosar nossa postura: por um lado, dosar nossos esforços no sentido de modificá-los e influenciar sensatamente o jeito de serem e, por outro lado, exercitar nossa complacência, tolerância e compreensão.
Não sendo obrigatória a convivência com esses nossos muito próximos e não se conseguindo mudanças significativas em sua maneira de ser, nem em nossa, planos devem ser elaborados para nos livrarmos dessa proximidade.
[Extraído de Ballone GJ - A Convivência com o Próximo - in. PsiqWeb, Internet, disponível em
revisto em 2003]