Pensei em voltar a ser criança. Abandonar as responsabilidades e arranjar alguns brinquedos para me divertir. Pensei nisso dirigindo meu carro. Em casa tirei um café da cafeteira, liguei o computador e fiquei navegando na internet. Desisti dos outros brinquedos.
Pensei em me tornar gay. Mas não achei competências suficientes dentro de mim para isso. Não de forma que não ficasse caricata. E me tornar num travesti é uma opção afastada. Afinal, sem carnaval, samba, suor e cerveja, seria muito difícil me manter sobre as tamancas.
Pensei em seguir uma religião. Esta coisa de ser ateu está me infernando, Deus me livre. Mas o culto não era curto e não me senti ovelha de nenhum Pastor. Isto me aborreceu.
Pensei em deixar o cabelo cumprido e a barba crescer. Usar uma sandália de couro, ouvir Bob Dylan e sair pela estrada. Fiquei tão diferente da foto do crachá que o segurança já não me deixava mais entrar no trabalho. Então lembrei que cair na estrada é meu dia-a-dia.
Pensei em abandonar toda tecnologia e levar um estilo de vida mais simples, bucólico, menos sofisticado. Anotei isso no Palm. Coloquei um wallpaper de Buda no notebook. Gravei mantras indianos no MP3. Agora meu celular saúda Krishina quanto toca. Plotei Katmandu no GPS. Coloquei comida japonesa no microondas. Nada funcionou.
Pensei em jogar tudo fora e começar tudo de novo. Então lembrei que as coisas que tenho estão penduradas no cartão de crédito, ainda não terminei de pagar. Comprei-as quando me separei, joguei tudo fora e comecei tudo de novo.
Pensei em não pensar.Mas isso eu não consigo fazer.
tutorial (parte 2)
Há 14 anos
